Antes da era dos booktubers e resenhadores digitais, os livros de bolso foram uma alternativa de mercado em vender barato e para um publico mais amplo. Se a virtude dos projetos gráficos contemporâneos é o volume impactante, a informação extra e o preço mais alto destinado a aquisições via crédito, houve tempos em que editoras de menor porte apostavam na economia de papel em edições miúdas e aspecto gráfico dos mais simplórios e sem frescuras.
Enquanto o "leitor erudito" investia em clássicos (com e sem aspas), o leitor comum, se satisfazia na cultura massificada dos pulps, dos romances policiais e livrinhos de faroeste que entupiam as prateleiras em setores "nichados" das bancas de jornais, impressos em papel barato e com capas sem orelhas, adquiridos junto a jornais e revista eróticas. Tudo pago com cédulas de dinheiro!
Black Phillip faz aqui uma rápida seleção de coisas esquecidas desses tempos e descobriu, entre bobagens pop, títulos que injustamente ficaram fora das pesquisas e do interesse dos revisionistas literários e merecem uma checada por interessados na literatura insólita ou que estudam escrita criativa para além dos modelos canônicos.
Noite Macabra (J. E. Neighbors, 1988) Na noite de Halloween na cidadezinha de St. Michael, Phil Dempsy aparece decapitado no que deveria ser apenas uma encenação festiva em um parque. As investigações revelam que muita gente na cidade teria motivos para o crime, uma vez que o morto extorquia uma rede ampla de cidadãos. Mistério investigativo de texto simples, ligeiro e sem grande atrativo, mas que pode ser interessante a pesquisadores em escrita como exemplo de produto despretensioso e mediano. Edição Nova Cultural de 1990 em sua série de pockets em papel jornal. 252 páginas. Cotação: 👿👿
A Casa Desabitada (J. H. Riddell, 1875) Jovem estagiário de uma imobiliária passa temporada em uma casa supostamente assombrada. Edição pioneira do resgate de obras fantásticas em domínio público. Editora Marco Zero, 1994. Cotação: 👿👿. Veja o post.
Os Vampiros Atacam (1975) Edição miúda e desleixada da antiga Editora Saber, destinada a bancas de jornal, e contendo três contos: Trindade Fantástica, Amor Fatal e O Amigo de Drácula. O primeiro na verdade é Carmila de S. Le Fanu com o título "reinventado". O Amigo de Drácula já recebeu edições melhores posteriormente. A raridade aqui seria o conto Amor Fatal de Simon Raven, sobre um trio de amigos em temporada nas montanhas que é atacado por uma vampira. Um conto curtinho e pouco interessante de um autor menos conhecido, que mais parece um excerto de uma narrativa maior. A única virtude da edição é a tradução bem cuidada. 125 páginas. Cotação: 👿
O Riso da Morte (Le Souffle Coup, 1958, Benoit Becker) O autor é um pseudônimo usado por escritores franceses que por algum motivo não assinavam um trabalho (entre eles Jean Claude Carriere). O Riso da Morte é um pulp de primeira sobre um escrivão francês que vai a Hamburgo tratar de uma herança, mas um grupo de ex-nazistas está em busca da fortuna. Cruel, violento, dinâmico e ligeiro, só tropeça na inevitável explicação de epílogo (final Scooby Doo). Edição Ediouro na Série Drácula, sem data, mas provavelmente de meados dos anos 80 como outras da mesma série. 96 páginas. Cotação: 👿👿👿
E Ninguém Viverá (Greffe Mortelle, 1958, Marc Agapit) Esta série de bolso da Ediouro trouxe uma boa quantidade de autores franceses pouco mencionados, em despretensiosas aventuras de nível B. Aqui temos uma estranhíssima narrativa pelo ponto de vista de um garoto (cinquenta anos antes de O Garoto do Pijama Listrado) que narra a situação de sua família disfuncional, repleta de desafetos e traições até que começam a ser dizimados um a um! Incomum, experimental e desconcertante em sua puerilidade de texto simplório e com a suspeita de que o narrador pode ser um espírito vagante! Edição Ediouro, série Drácula, 198? 108 páginas. Cotação: 👿👿👿
O Clube dos Haxixins (Theophile Gautier, 1987) A editora L&PM apostou por um bom tempo no formato pocket e reeditou muita coisa de seu catálogo focando no mercado mais acessível de venda rápida (quem não se lembra dos expositores giratórios nas livrarias?). Aqui temos quatro contos de Gautier representando o apreço dos românticos por devaneios delirantes. Os contos A Cafeteira e A Morte Enamorada são (especialmente o segundo) considerados exemplares da literatura fantástica. O Caximbo de Ópio e O Clube dos Haxixins são apaixonadas investidas em delírios estéticos. Edição L&PM na saudosa série Rebeldes Malditos, 1987. 110 páginas.
A Noite de Walpurgis (Walpurgisnacht, Gustav Meyrink, 1917) A série portuguesa Livro B teve grande importância no final de década de 70 e começo de 80, ao resgatar obras diferenciadas da literatura insólita. Com forte carga imagética, natural ao expressionismo, Meyrink conta aqui sobre o levante de classes populares contra a nobreza, em uma ação influenciada por antepassados justamente na noite das bruxas, a noite do ano em que os espíritos tem liberdade de vagar sobre a Terra. Pouco citado no Brasil, o autor é dos mais interessantes do fantástico expressionista. Editora Estampa. 219 páginas. Cotação: 👿👿👿👿👿
Ancestrais (Ancestors, Robert Y. Kline, 1988) A série de bolso da Nova Cultural ganhou certa notoriedade com o tempo por seus autores pouco badalados e pelas narrativas fáceis. Este Ancestrais conta o drama de Toby, um garoto de dez anos que tem frequentes dores de cabeça. Ao ser tratado por um especialista em genética, Toby é levado a sessões de hipnose que revelam compartimentos de memória pertencentes a ancestrais de séculos passados! Um fanático religioso suspeita que o garoto pode estar possuído por forças malignas e o sequestra para uma sessão de exorcismo! Suspense leve e descompromissado em seu texto simpático, mas que desaponta no final com sua mensagem de paz espiritual. E a imagem do monge de olhos vermelhos da capa? Nada a ver com nada... Editora Nova Cultural, 1990. 272 páginas. Cotação: 👿👿
Panzer Imortal (Panzer Spirit, Tom Townsend, 1988) Divertida fantasia repleta de referências em texto bastante simpático e fluente. Com a estrutura de um roteiro de filme Panzer Imortal conta sobre a descoberta de um blindado alemão abandonado depois da guerra, mas que retorna a atividade movido por uma misteriosa força interna! Um especialista em tanques precisa localizar a máquina e tentar parar sua trilha de destruição. Com menção a dados históricos, técnicos, geográficos, além do Edda em Verso, Tolkien, um pouco de fantasia medieval, influências de vidas passadas, e até a kits de plastimodelismo, Panzer Imortal diverte em seu pastiche indulgente como um bom exemplar de cinema B. Editora Nova Cultural 1990. 270 páginas. 👿👿👿
Contos Breves (Guillaume Apollinaire, 1909) Coletânea de contos insólitos do inclassificável Guillaume Apollinaire (1880-1918), herdeiro dos românticos, precursor dos surrealistas. Seus contos incorporam o absurdo como uma possível percepção alterada do real, satirizando hábitos e costumes de uma sociedade industrializada e movida por capital. Alguns momentos resvalam no grotesco como no episódio das cirurgias revolucionárias (Cirurgia Estética) que aprimoram a raça humana acrescentando órgãos e olhos conforme a necessidade do paciente! A seleção inclui ainda O Mago Apodrecido, novela considerada seminal na obra do autor, destacada como seu melhor trabalho por Andre Breton, o pai do surrealismo. Edição L&PM 1998. 204 páginas. 👿👿👿👿


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