26 de outubro de 2017

Mundo Mudo

Gabinete do Dr CaligariUma visita aqui às raízes do cinema de terror em 17 filmes. Legal é que esses filmes estão disponíveis em sites, streamings ou no YouTube. Descontei alguns filmes dos que já ouvimos muito falar e ver como clássicos imprescindíveis como Nosferatu (1922), Gabinete do Dr Caligari (1919), Fantasma da Ópera (1925) ou as primeiras experiências no macabro como o Frankenstein de Edison (1910) e filmes de Meliès como The Haunted Castle (1898) e The Merry Frolics of Satan (1906). E ficam naturalmente de fora alguns casos perdidos como Dracula's Death (1921), Der Januskopf (1920) e London After Midnight (1920) até que alguém localize uma cópia e a restaure...
Aí vão então 17 filmes das raízes do cinema fantástico e do terror.

1911 L'Inferno • Grandiosa produção italiana baseada na Divina Comédia de Dante Alighieri, que adapta genialmente a trajetória de Dante e Virgílio. Dirigido por Giuseppe de Liguoro, o filme se limita à primeira trajetória da obra, o círculo do inferno. Épico e ousado, é notável por ainda pertencer à "estética primitiva" (a câmera de frente aos eventos, como um espectador diante de um palco) mas sugerir vastidão e profundidade de campo. Além de ter truques fotográficos muito bons. Também é marcante por sua aproximação às gravuras de Gustave Doré que ilustraram a edição impressa. Sua grandeza estética o destaca como um dos mais ousados e visionários filmes de sua era. Espetacular! 😈😈😈😈

Homunculus
1916 Homunculus • Criado em uma experiência de laboratório, Homunculus é trocado no berço de uma criança falecida para ser criado. Na idade adulta ele se descobre diferente: Homunculus não tem alma e portanto não tem sentimentos! Revoltado com sua origem e sua condição ele vaga pelo mundo incentivando revoltas e atos destrutivos. Curiosa produção alemã pré-expressionista e ainda antes da influência visual de Gabinete do Dr Caligari (1919). Gerou uma série famosa em seu período e integrou uma linha de filmes sobre criação de vida por meios artificiais como Golem e Frankenstein. Vale mais pelo inusitado de sua  premissa, uma vez que a criação visual é bastante convencional. 😈😈

1920 Genuine • Dirigido por Robert Wiene, Genuine circula em versão reduzida de sua metragem original. É uma obra estranhíssima em sua postura teatral, quase como um filme de Meliés e clima constante de delírio. A imagem de Genuine ganha vida no momento de sono de um leitor, desce do quadro na parede e o filme revela sua história como uma sacerdotisa que foi raptada e vendida como escrava. Wiene parece tentar ultrapassar a estética de Dr Caligari com seus cenários irreais e excesso de estampas hipnóticas nos fundos. 😈😈

Golem
1920 Golem • Para defender seu povo de perseguição e expulsão, o Rabino Loew cria o Golem, uma figura de argila que ganha vida sob um feitiço revelado pelo espírito de Astaroth. Mas a criação acaba servindo a interesses particulares até ser desativada pela inocência de uma criança. Clássico do fantástico, grandioso e visualmente espetacular. Entre os mais importantes de sua era. Paul Wegener dirige e protagoniza possivelmente o maior personagem de sua carreira de tipos fantásticos. 😈😈😈😈

The Penalty
1920 The Penalty • Lon Chaney é Blizzard, o líder do crime no submundo de São Francisco que planeja uma vingança contra o médico que negligenciou seu tratamento e amputou suas pernas quando jovem. A rigor The Penalty é um suspense, mas é tão marcado por excentricidades como excessos dramáticos, passagens secretas e a relação de Blizzard com a imagem satânica que uma escultora desenvolve, que se aproxima da estilização do horror. Chaney tem aqui uma de suas mais impressionantes performances como o cruel chefão do crime. Ele teve problemas circulatórios nas pernas depois de se submeter por horas à exigência das filmagens, mas o resultado é simplesmente uma das mais espetaculares performances físicas da história do cinema. 😈😈😈

The Phantom Carriage
1921 The Phantom Carriage • Dirigido por Victor Sjostrom. Trama episódica que revive momentos na vida de um homem à beira da morte. O último falecido no ano corrente deverá assumir o posto de condutor da carruagem que recolherá os mortos no ciclo seguinte. Lento e dramático, com um belo rendimento visual, especialmente nas aparições da carruagem. Tem ainda o destaque à sequência que pode ter influenciado O Iluminado, com o protagonista abrindo a porta a machadadas e a mulher no outro cômodo. Os diálogos e argumentações com a morte também podem ser antecedentes de O Sétimo Selo. Inclusive o ator e diretor Victor Sjostrom trabalhou com Bergman em algumas ocasiões sendo Morangos Silvestres a mais destacada. 😈😈😈

Haxan
1922 Haxan • Possivelmente o primeiro documentário fake (mockumentary) do cinema. Haxan é uma co-produção sueco-dinamarquesa que em sete capítulos faz um apanhado sobre ciências primitivas, bruxaria, inquisição, cultos e influência demoníaca e termina seu discurso na racionalidade científica ao explicar casos de possessão como surtos de histeria. E isso, trinta anos antes de Demônios de Loudun. Por algum tempo supôs-se que algumas cenas fossem realmente documentadas de cultos pagãos tal a excelência da produção. Com pouca relação com as correntes estéticas da época é um trabalho de invejável força visual, mais ligado a gravuras clássicas do que a revolução expressionista. 😈😈😈😈

O Gabinete das Figuras de Cera
1924 Waxworks (O Gabinete das Figuras de Cera) • Paul Leni dirige esta fantasia em episódios. Ao visitar uma apresentação de figuras de cera, escritor imagina e vivencia episódios fantásticos influenciado pelas encenações expostas. No primeiro episódio, Emil Jannings é um kalifa que quer expulsar um padeiro das proximidades de seu palácio, mas conhece a bela esposa do padeiro e muda de planos. No segundo, Conradt Veidt é Ivan o Terrível que se deleita com as execuções de seus inimigos e no epílogo o ator/diretor William Dieterle faz o escritor que se envolve com Jack o Estripador. 😈😈😈

As Mãos de Orlac
1924 The Hands of Orlac (As Mãos de Orlac) • Conrad Veidt novamente marcante em um clássico de sua era. Aqui ele é um famoso pianista que após um acidente precisa ter as mãos transplantadas. Mas as mãos que ele recebe foram de um assassino e demandam mais mortes! Para desespero do pianista, as mãos dominam a mente de seu portador. Apesar da premissa surreal e grandes momentos estéticos com Veidt, o filme desenvolve narrativa policial quando Orlac passa a ser chantageado por uma grande soma de dinheiro. Dirigido por Robert Wiene. Filme perfeito a expressão corporal do ator! Foi refilmado nos anos 60 e o argumento serviria a diversas variações e contos de terror. 😈😈😈

The Monster
1925 The Monster • Amalucada e cartunesca aventura que surpreende no humor macabro. Um título menor na filmografia do grande Lon Chaney, mas destacado pelas idéias que seriam reutilizadas em muitos filmes posteriores de cientista louco. Os assistentes do dr. Ziska provocam acidentes expondo um espelho na estrada para confundir os motoristas! E recolhem os acidentados para as experiências do enlouquecido doutor. Um jovem aspirante a investigador segue as pistas que levam ao misterioso manicômio há anos em desuso. Humor físico de desenho animado e aventura compõem o filme de forma divertida e descompromissada. 😈😈😈

Lost World
1925 Lost World • Primeira versão da obra de Arthur Conan Doyle. O prof. Challenger lidera uma expedição à Amazônia para localizar uma região onde ainda vivem dinossauros. A experiência bem sucedida consegue ainda capturar e levar para Londres um Brontossauro para exibição pública. Modelar em sua estrutura que seria reutilizada em incontáveis jungle adventures posteriores. Aqui temos a inovação dos efeitos stop motion de Willis O´Brien na animação das criaturas em momentos visualmente muito bons, especialmente na fuga do Brontossauro pelas ruas de Londres. O modelo técnico e narrativo seria expandido em King Kong (1933). Refilmado em 1960 com direção de Irwin Allen. 😈😈😈😈

Faust
1926 Faust • Adaptação da obra de Goethe dirigida por Friedrich W. Murnau. Assombroso esteticamente, especialmente em sua primeira parte com um uso espetacular de luzes, sombras e efeitos em cenas memoráveis como a encruzilhada ou as instalações de Fausto tomadas por chamas. O demônio abrindo as asas sobre a montanha iria inspirar uma das sequências da animação Fantasia (1940). Mephisto é mandado à Terra para corromper um homem honesto e Fausto cede à possibilidade de ter sua juventude de volta. 😈😈😈😈😈

O Estudante de Praga
1926 Der Student von Prag (O Estudante de Praga) • O jovem estudante Balduin amarga dificuldades financeiras até que recebe a visita de um misterioso mercador que lhe oferece a realização de todos os seus desejos se assinar um contrato. Trabalha com a ideia do duplo, o doppelganger, o reflexo de Balduin, que escapa do espelho e adquire autonomia por obra do misterioso mercador. Refilmagem da versão de 1913 com Paul Wegener, atualizando técnica e efeitos narrativos em um resultado notável. 😈😈😈😈😈

1926 Midnight Faces • Jovem recebe uma mansão de herança situada nos pântanos da Flórida e muda-se para o local acompanhado de um advogado e seu empregado. Mas o local parece habitado e moradores próximos interferem, movidos por interesses particulares. Suspense com bastante espaço a comicidade. Como The Cat and the Canary, estabeleceu bases para os filmes de mistério com seus ambientes, sombras projetadas, mãos saindo detrás de cortinas e até a clássica figura de chapelão e rosto coberto por uma capa. Também tem "final Scooby-Doo" com os malfeitores sendo presos e toda a trama explicada em diálogos. Mediano, mas suficientemente movimentado. Literalmente um modelo clássico. 😈

The Magician
1926 The Magician • Paul Wegener é o vilão Oliver Haddo neste suspense baseado em livro do escritor inglês Somerset Maugham. Com alguma influência expressionista, o filme atenua bastante o conteúdo dramático do livro, reduz o personagem Haddo a um lunático e se conclui em uma luta para salvar a mocinha. Mas tem a figura de Wegener, sempre marcante e o terço final nas instalações góticas do mágico são memoráveis assim como a visão do "inferno clássico", repleta de sátiros e ninfas. 😈😈

The Cat and the Canary
1927 The Cat and the Canary • Vinte anos depois da morte do milionário Cyrus West, seu testamento será aberto e lido. Seus possíveis herdeiros se reúnem em sua mansão onde dizem que o fantasma do milionário ainda circula! Direção de Paul Leni em um suspense satírico que utiliza truques visuais para humor. O filme é um clássico por sua perfeita estrutura de roteiro muito reutilizada posteriormente. E pelo equilíbrio entre o mistério da trama, o humor e excelente rendimento visual em diversos momentos marcantes em seu jogo de luzes fantasmagórico. Também é notável que busque inovação em momentos esteticamente alternativos ao tradicional ângulo frontal de câmera. Produção da Universal em fase inicial do seu clássico ciclo de filmes de terror e mistério. 😈😈😈😈

The Fall of the House of Husher
1928 The Fall of the House of Husher • A convite de Roderick Usher, Allan visita o velho amigo em seu decrépito casarão. Em sua estadia no local Allan conhece Madeleine, a esposa enferma do amigo que parece progressivamente tomado de alguma loucura. Baseado no famoso conto de E. A. Poe, que foi filmado diversas vezes. Esta versão em média metragem (pouco mais de uma hora) surpreende em sua originalidade cênica. Impossível atribuir algum rótulo genérico por sua estilização inigualável. Produção francesa dirigida por Jean Epstein que escapa aos padrões de sua época, mas pode ter alguma referência surrealista nos amplos espaços do casarão, enquadrados de forma incomum. Também se destaca por sua inventividade técnica que usa recursos essencialmente cinematográficos para desequilíbrio sensorial como câmera lenta, montagem acelerada, sobreposições de imagem e travellings. 😈😈😈😈

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