11 de dezembro de 2018

O Estranho Mundo dos Filmes Estranhos

Taxidermia

Weirdos! Mais do que as machadadas, a violência ou brincar com as entidades sobrenaturais, uma das maiores virtudes (senão a principal) do cinema fantástico é a exploração da alternativa cinematográfica. A alternativa estética e narrativa, essenciais ao cinema enquanto aventura de criação.
Black Phillip separou aqui um punhado de esquisitices não necessariamente macabras, mas curiosas enquanto produto fílmico. Weird cinema. Quando o filme não precisa recorrer a convenções de gênero, ou melhor ainda, quando o filme intencionalmente evita convenções e se lança ao risco. Às vezes é um risco calculado, como um bungee jump, mas quase como regra, o resultado é no mínimo intrigante. Um refresco ao modelo consagrado pela industria e que nos é imposto por todas as vias de que essa industria dispõe.

Natural que os surreais se encaixem imediatamente nesta seleção de weirdos com Buñuel e Jodorowsky entre as primeiras lembranças. Apesar de análogo à própria essência do cinema, o surreal constituiu gênero próprio e que é visitado regularmente pelos cineastas. Por que "análogo à essência do cinema"? Porque ninguém vê o mundo em contra-plongees alternados a panorâmicas e inserts de detalhes. O corte e justaposição de planos cinematográficos conduzindo à conclusões narrativas já é surreal em si mesmo.

De Buñuel já temos os curtas com Salvador Dali como referências maiores do surrealismo vindo diretamente das artes visuais (L'Age D'Or e Un Chien Andalou). E de Jodorowsky o destaque óbvio é a trilogia básica: Fando e Lys, Montanha Sagrada e El Topo. Jodo teve um parceiro importante nos tempo do Movimento Pânico (teatro surrealista) que foi Fernando Arrabal (junto ao ilustrador Roland Topor). Arrabal também dirigiu uma conceituada obra de surreais com Guernica Tree, Irei Como um Cavalo Louco e Viva La Muerte. Ao time de obras surrealistas de destaque no cinema inclui-se o genial Sanatorio Klepsydra de Wojciech Has.

Mais destaques no período (início dos 70) foram Black Moon inesperada fantasia de Louis Malle e Alice de Claude Chabrol. Roman Polanski se aproximou do gênero em Che? (1973) e Werner Herzog, mestre alternativo por excelência tem em Até os Anões Começaram Pequenos (1971), um de seus mais estranhos filmes. A rebeldia e insubordinação inerentes a segregações sócio-econômicas. Recentemente tivemos de Herzog o drama My Son My Son, What Have You Done? consagrando Willem Dafoe como o mais aventureiro dos atores americanos (chupa Johnny Depp!).
Continuando pela Europa, (aliás Europa é um filme do Lars Von Trier), o saudável período contestador na atividade artística dos anos 60 impulsionou trabalhos incomuns e sem precedentes como Valerie e a Semana das Maravilhas (1970), Sweet Movie (1974), Steppenwolf (1974), Themroc (1973), entre diversos outros.

El Topo

O diretor francês Georges Franju é, mais ou menos, um caso isolado. Seus filmes são de difícil classificação. Como bom alternativo, Franju parece tentar forçar os limites conceituais que definem gêneros e explorar terreno novo.  A aventura Judex (1963) pega um personagem do cinema mudo e traz o modelo estético/narrativo desse período para a atualidade. Franju radicalizou um pouco mais em Les Yeux Sans Visage (1959) que mescla a elegância dos cenários vitorianos a inserções explícitas totalmente fora de sua época. 
O italiano Julio Questi  foi nome interessante e radical em suas experiências. La Morte Ha Fatto L'Uovo (1968) é um thriller-pop-art muito original e Arcana é uma espécie de filme em quebra-cabeça com sequências que não levam precisamente a uma lógica convencional. O espectador tem que criar sua própria conclusão narrativa com as sequências que, digamos, lhe forem mais convenientes. Cinema interativo em 1975?! Um exercício que convida a diversas visitas à mesma obra.

Jodorowsky voltou a ativa nas câmeras com A Dança da Realidade (2013) e Poesia sem Fim (2016). São bacanas? Tanto quanto seus clássicos anteriores? Não importa! Ele voltou a filmar e só isso já é bom! Especialmente no cenário atual. Atualmente parece que a "pose cult" pesa mais do que qualquer intenção. A necessidade de surpreender a todo custo fundamenta o cinema mais do que simplesmente fazer um filme legal. Todo mundo quer revolucionar. Sei lá, pode ser só rabugice do Felipe Preto. Mas o que dizer, por exemplo, de Subconscious Cruelty? A intenção foi boa, mas faltou cinema! Será um problema dos contemporâneos essa armadilha na qual vemos claramente a produção, vemos a intenção, vemos o ator interpretando, mas quase não vemos O FILME?
Como ponto positivo, temos uma liberdade sem precedentes no cinema contemporâneo e alguns trabalhos que jamais teriam sido feitos em outra época como as explicitações de Taxidermia, a estética techno-sangrenta de Neon Demon, o peso visual de Begotten, ou a abordagem satírica do diretor Guy Maddin em Forbidden Room ou Brand Upon the Brain.

E o mercado americano? Para sempre condenado a repetir fórmulas e cumprir estatísticas de gosto coletivo? Nem sempre. Tem as exceções à regra como O Segundo Rosto e O Processo. Mas a América é brega e entre as bravas tentativas situadas entre o cinema cult e o cinema nerd temos coisas interessantes como Quero Ser John MalkovichBrilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança ou Donny Darko. David Lynch é figura essencial na filmografia americana e Black Phillip destaca entre seus favoritos, Estrada PerdidaEraserhead e Império dos Sonhos.
Alguns velhos conhecidos acho que nem precisa citar. Imagino que os amigos do Phillip já viram Tetsuo, Zardoz, Liquid Sky, Nekromantik, Anticristo, XzistenZ, Enter the Void e todos do Andrzej Zulawski.

Aí então foi uma seleção, sem méritos especiais, de filmes malucos bizarros e nem entramos no cinema oriental porque a lista ia ficar grande. (A verdade é que o Black Phillip tem medo do Takashi Miike ... mas já postou Horror of Malformed Men em algum lugar.)

O Segundo Rosto

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