1 de fevereiro de 2019

Desde Quando Andam os Walkers?...

A Noite dos Mortos Vivos

Antes de Psicose (1960) o cinema tinha nas criaturas fantásticas a forma mais perfeita de povoar nossos pesadelos. Sátiros, ciclopes, sereias, harpias, vampiros, a criatura de Frankenstein e até o amazonense monstro da lagoa negra, foram, invariavelmente, derivações da figura humana para a composição de um personagem sobrenatural.

Com as narrativas policiais e posteriormente os thrillers, a figura humana, o homem comum, passou a ganhar a estatura e o poder intimidador das criaturas sobrenaturais. Assassinos seriais, lunáticos irreversíveis ou consumados marginais acabaram por se mostrar tão fascinantes quanto as criaturas oriundas da mitologia e da literatura fantástica.
Em Psicose e nos thrillers derivados, o homem é a aberração. Em O Homem Que Odiava as Mulheres (The Boston Strangler, 1968) o interesse da narrativa e do espectador não é a vida regrada do pai de família protagonista. O interessante é a distorção, a segunda personalidade, o assassino que habita a mente de Albert de Salvo (Tony Curtis). Em O que Terá Acontecido a Baby Jane (1962) todo o horror vem da loucura das personagens não adaptadas à realidade. Resumindo: os piores monstros somos nós mesmos. E o ponto de cruzamento entre o homem comum e a ameaça sobrenatural-folclórica é o morto-vivo. No desenvolvimento e sedimentação da mitologia pop de massa – que inevitavelmente passa pelo cinema – o morto-vivo é a intersecção entre o real (humano) e o sobrenatural. Nos filmes de zumbi a figura humana é a ameaça. Mais ainda: a figura humana em grupo é a ameaça. O que é esse ser tão fascinante na cultura pop contemporânea? Simplesmente alguém que voltou à vida biológica e é orientado pelo instinto mais básico: comer e seguir em frente. Um morto-vivo não tem superpoderes, não tem planos malignos, não tem coordenação, é uma nulidade enquanto ser individual, e só concretiza sua ameaça em grupo. Um morto-vivo não serve para nada e certamente estará melhor morto do que vivo. Portanto, chumbo nele! Que leitura essa fantasia permite em plena era de integração global, discursos de inclusão e estímulos massificadores que nos alcançam por diversas vias?
E para os não contaminados a vida resumiu-se a uma fuga desesperada. O mundo se tornou um inferno sem saída pela infestação dos living dead (nossos semelhantes e entes queridos) e os momentos de reação violenta a eles, de espancamentos, de esmagamentos cranianos, de metralhamentos à esmo, são sintomáticas catarses sadicamente saboreadas pelas plateias. Restaurar a ordem demanda matança em larga escala? Então fuzilar os semelhantes é necessário e ainda divertido! Que conclusões estarão contidas nessas entrelinhas?


Mortos-vivos, vampiros e semelhantes

O culto aos mortos vivos na cultura moderna pode ser um assunto tentador a antropólogos. O que nos filmes foi usado como uma crítica ou um alerta a massificação dos sentidos nivelados por um motivo comum agora é buscado consciente e voluntariamente pelo espectador, mesmo que só de brincadeirinha em eventos zombi walk ou cosplaysGeorge Romero ambientou seu Despertar dos Mortos em um shopping center para o qual os zumbis voltam instintivamente. Instinto associado a consumismo! Em Land of the Dead (Terra dos Mortos) os condomínios de luxo são o abrigo dos detentores do poder político e financeiro. Os policiais da SWAT, em Despertar dos Mortos (1978), entregam-se a um prazer catártico ao precisar fuzilar livremente as “pessoas” ao redor. E o espectador, por extensão, compartilha desse prazer. George Romero também: as sequências nas quais um bando de motoqueiros invadem o shopping center onde se passa a ação, roubam joias de madames-zumbis e disparam tortas-na-cara dos “habitantes do shopping” funcionam como o triunfo da geração drop-out contra uma sociedade materialista. Mais adiante, na refilmagem de A Noite dos Mortos Vivos (1991, com roteiro de Romero), a protagonista, ao ver os caçadores se deliciando com os fuzilamentos e maus tratos aos mortos vivos, conclui amargamente: “Eles são nós e nós somos eles”.



Os games digitais compreenderam imediatamente as implicações subjetivas da “cultura mortos vivos” proporcionando ao jogador a chance de ser o protagonista da ação. Disponibilizaram um arsenal bélico invejável e uma infinita legião de mortos vivos para serem abatidos. The House of the Dead, Doom3Resident Evil, ZombiU e Left 4 Dead são grandes exemplos de uma proposta de diversão fundamentada em um conceito pré-intelectual: o prazer impune de fuzilar os semelhantes. Os games tiveram grande importância na revelação da mitologia living dead para uma geração que não a conheceu no cinema. Mas os mortos vivos caminham há mais tempo do que imaginamos. Cesare em o Gabinete do Dr Caligari (1919) foi o primeiro morto vivo das telas e o vampiro Nosferatu (1922) também é um desmorto. Tivemos também o muito bom White Zombie (1932) como o primeiro filme com zumbis. Apesar dos zumbis apáticos e obedientes (baseado no folclore haitiano originário dos zumbis), o filme tem uma foto e clima excelentes na tradição da época. Parece King Kong, com suas camadas de matte paintingE a lendária produtora inglesa Hammer tem o Plague of Zombies (Epidemia de Zumbis, 1966) como o primeiro filme de zumbis na era moderna. Pena que é fraquinho.

George Romero e derivações

Falar de zumbis na cultura moderna é falar de George Romero, o teimoso talento que preferia ficar em sua Pittsburg natal ao invés de mudar para a costa oeste e ingressar na indústria hollywoodiana. Com o célebre A Noite dos Mortos Vivos (1968), Romero fez história com um dos mais notáveis filmes B de todos os tempos. Rodado em fins de semana e nas madrugadas e financiado por capital múltiplo (leia-se, "crowdfunding entre amigos"). Inicialmente sem maior repercussão nos cinemas, A Noite dos Mortos Vivos foi ganhando fama e tornando-se um autêntico cult em circuitos alternativos de exibição e sedimentando sua influência. Com o tempo começaram a surgir as consequências como os divertidos Children Shouldn´t Play With Dead Things (1972) e Psychomania (1972). Neste último um bando de motoqueiros-arruaceiros é revivido por magia negra e torna-se um bando de motoqueiros-arruaceiros-mortos-vivos. Faltou roteiro na empreitada e uma das poucas virtudes dessa produção é a divertida trilha musical de John Cameron que faz um mix de hard-rock com trilha climática. 
Ainda sobre A Noite dos Mortos Vivos é interessante reconhecer que a principal influência visual vem de Last Man on Earth (Mortos Que Matam, 1964) produção italiana estrelada por Vincent Price e baseada na novela Eu Sou a Lenda de Richard Matheson. O cerco de criaturas em volta da casa em número cada vez maior tem muita relação com o filme de Romero. Mortos Que Matam foi refilmado em 1975 como The Omega Man (A Última Esperança da Terra). Aqui o filme já parte para a aventura braçal com Charlton Heston metralhando e dinamitando legiões de mutantes/zumbis que cercam seu refúgio. Posteriormente a Omega Man, tivemos uma versão diretamente saída da novela de Matheson em Eu Sou a Lenda (2007).
Considerando a ameaça no comportamento em grupo, característico dos filmes de zumbis, é interessante destacar algumas variações como em Shivers (1975), Quien Puede Matar a um Niño? (1976) e Invasion of Body Snatchers (Invasores de Corpos, 1978). A rigor não são filmes de zumbis, mas a relação é muito próxima: a perda da razão individual, a contaminação grupal crescente, a direção apocalíptica dos acontecimentos, etc.



Voltando a Romero: com as finanças mais encorpadas e administrando uma companhia de cinema própria, a Laurel, George Romero investiu em uma sequência para Noite dos Mortos Vivos. Em 1978 lançou Dawn of Dead (Despertar dos Mortos) que contou com o auxílio do italiano Dario Argento, outro genial renovador da mitologia dos filmes de terror.
Dawn of Dead foi lançado com sucesso no mercado europeu como Zombi e por isso as grafias variam tanto (Zombie, Zombi, Zumbi ...) e por isso tivemos tantos filmes de mortos vivos na produção europeia, a começar por Zombi 2 (1979) de Lucio Fulci seguido de uma infinidade de filmes oportunistas em progressiva perda de qualidade. Romero deu continuidade à saga com Day of Dead (Dia dos Mortos, 1985), que era pra ser ótimo, mas ficou apenas bom. Hoje é impossível citá-lo sem chamar de clássico.
Em Creepshow (em VHS – Show de Horrores, 1981), divertido exercício em terror pop em episódios, declaradamente inspirado nas HQs dos anos 50 (Tales From the Crypt, principalmente), um episódio é dedicado a morto-vivo. E já que chegamos aos anos 80 não poderia faltar a menção a dois grandes sucessos do período, Re-Animator e A Volta dos Mortos Vivos, ambos de 1985.

Euro zombies

Se você é fã die hard de filmes de zumbi ou está apenas de passagem não dá para ficar sem conhecer a produção europeia, principalmente a italiana. Mesmo que você só tenha entrado no movimento pela curtição do zombie walk, tem que dar uma parada e ver o que influenciou a produção que se faz agora. 
Living Dead at Manchester Morgue (1974) coprodução ítalo-espanhola dirigida pelo espanhol Jorge Grau só não é o primeiro grande filme de zumbis da história porque George Romero fez A Noite dos Mortos Vivos antes.
La Notte Dei Diavoli (1971) é outra pouco citada pérola do cinema fantástico europeu. Baseada no conto Wurdalak de Tolstoi. A trama se refere a vampiros e a narrativa usa a habitual situação dos filmes de mortos vivos com as criaturas cercando uma cabana onde os heróis se protegem. Como a grande maioria das produções italianas, esta também se beneficia do bom nível técnico da fotografia, cenografia e efeitos. Apesar do elenco fraco – o protagonista Gianni Garko fez carreira na série de faroeste Sartana – o diretor Giorgio Ferroni (de O Dólar Furado) faz uso perfeito dos recursos técnicos na criação de atmosfera.
Paura Nella Cittá Dei Morti Viventi (em VHS - Pavor na Cidade dos Zumbis, 1980) do idolatrado Lucio Fulci (mais ou menos o Mojica italiano) mistura de tudo: aparições, espíritos e mortos-vivos em um pastiche exemplar. Fulci repete a dose no igualmente recomendável The Beyond/L'Aldilá (em VHS - Terror nas Trevas, 1981), um insuperável delírio cênico e narrativo, exemplar da linha splatter de cinema. Ainda na produção italiana merece destaque o visualmente requintado Dellamorte Dellamore (em VHS – Pelo Amor e Pela Morte, 1994), baseado em obra de Tiziano Sclavi e com muita relação com o personagem Dylan Dog desse mesmo autor. Temos também o filme baseado diretamente no personagem citado, o apenas bacana Dylan Dog, Dead of Night (2010). Uma curiosidade foi Black Demons (1991) dirigido por Umberto Lenzi e filmado no Brasil, com rituais de macumba, vodu e zumbis. 
A trajetória pelo cinema zumbi não ficaria completa sem passar pelo insano Braindead (Fome Animal, 1992). Genial, hilário e sangrento, foi o filme que projetou o nome de Peter Jackson internacionalmente e foi uma das mais criativas variações no gênero mortos-vivos. Imprescindível na conexão entre a produção de agora e a das décadas anteriores.

La Horde

Zumbis contemporâneos - A proliferação

E a epidemia continua e talvez tenha alcançado o máximo de sucesso popular ao contar com produções mais custosas (como Guerra Mundial Z, 2013) e invadir as telas residenciais com a série Walking Dead. Alguns filmes são suficientemente inventivos como Banquete dos Zumbis, dinâmico em suas referências ao cinema de Sam Raimi e Peter Jackson. George Romero tentou uma recuperação à velha forma com Survival of the Dead (A Ilha dos Mortos, 2009) no qual retornou à sua habitual produção de nível B, com elenco desconhecido e sem efeitos digitais. 
Depois do sucesso dos games e de algumas refilmagens muito boas como Dawn of Dead (Madrugada dos Mortos, 2002) os filmes de mortos vivos proliferaram como uma autêntica epidemia de zumbis. A piada é inevitável e até certo ponto procedente afinal o excesso de exposição, como uma praga, poderá levar a um apocalipse fílmico. O esgotamento final. O próprio George Romero deu sinais de estafa criativa em Diário dos Mortos (2007). E o gênero foi tomado por produções vindas de mercados atualmente menos competitivos ou menos atuantes. Dessa forma o citado irlandês Dead Meat (Banquete de Zumbis, 2004), o inglês 28 Days Later (Extermínio, 2002), o australiano Undead (2003), o espanhol REC (2007), o italiano Eaters (2010) ou o francês La Horde (2009) tentaram ingresso no mercado através de filmes de zumbis. E temos as variações duvidosas que conduzem ao real esgotamento como Warm Bodies (Meu Namorado é um Zumbi, 2012) ou o minimalismo simbólico de It Stains the Sands Red (2016). Os filmes baseados em games de sucesso como Resident Evil e Left 4 Dead também são sintoma dessa exposição em excesso, além da incontável quantidade de filmes que vão das produções profissionais, produções independentes, amadoras e até os fan films que circulam pela internet.
O grande problema da mitologia cinematográfica dos mortos vivos é que a situação geral que sustenta os filmes é bastante simples e as possibilidades de roteiro praticamente foram esgotadas nos três filmes de zumbis de George Romero. Depois foi só “mais do mesmo” – com honrosas exceções.
As possibilidades de se explorar propostas climáticas ou o exercício de construção de suspense, como nos já citados Living Dead at Manchester Morgue ou Children Shouldn´t Play With Dead Things, são quase impensáveis no padrão contemporâneo de cinema. Atualmente com a constante e questionável necessidade da câmera móvel, da montagem picotada em excesso e a narrativa concentrada na aceleração mais do que no suspense, a qualidade gráfica fica comprometida. O produto cinematográfico atual vende efeito emocional mais do que conteúdo visual. Situação talvez incoerente para um produto (o filme) que é fundamentado na imagem. Afinal, pagamos para VER um filme. 
Uma das saídas de roteiro foi disfarçar a situação básica em variações como nos epidêmicos REC (2007), Cabin Fever (2003) ou divertidas versões satíricas como Shawn of the Dead (Todo Mundo Quase Morto, 2004), Zombieland (2009) e Cockneys Vs Zombies (2012), além de incontáveis sequências e misturas de referências do gênero e dos subgêneros derivados, como os zumbis nazistas do norueguês Dead Snow (2009), subtema que já havia servido aos esquecidos Shock Waves (1977) e Zombie Lake (1981).
Day of Dead (Dia dos Mortos, 2008) pegou emprestado o título de Romero e desenvolveu uma aventura interessante, com alguns excessos (zumbis subindo pelas paredes!), mas com um resultado geral bacana, acima da média atual. 
Imediatistas e menos reflexivo, os filmes atuais quase dispensam o suspense e entregam-se a uma ameaça mais dinâmica e escatológica. Os zumbis agora são ágeis, coordenados e raivosos. A visão crítica ou satírica de vícios sociais (o shopping de Dawn of Dead é o grande exemplo) parece algo abandonada. Os zumbis já não precisam estar em grupo para consumar ameaça. Romero parece ser o único preocupado com algum conteúdo crítico, como na estratificação social imposta em Terra dos Mortos.

Curiosamente o que um dia foi um lazer de gosto duvidoso ou prova de resistência emocional (atravessar 90 escatológicos e agoniantes minutos de um filme de zumbis comedores de carne humana) hoje é uma diversão corriqueira devorada avidamente pelas plateias. Os zumbis mudaram de lugar? 

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