7 de maio de 2026

Alucinação - uma ficção pulp herdeira dos surrealistas!

Alucinação Patrick Svenn


Daquele dia em diante, a vida de Kirk passou a ser uma extenuante corrida dentro de um círculo murado. Alguma coisa o perseguia. Onde encontraria a saída para a liberdade? Era como um esquilo preso na gaiola, galgando indefinidamente as grades que o mantinham prisioneiro, na esperança da ilusória fuga.

A série de bolso da Ediouro trouxe uma boa quantidade de autores franceses pouco mencionados, em despretensiosas aventuras de nível B, a maioria delas escritas nos anos de 1950. Nesta novela de forma incomum, o protagonista é Kirk, um milionário vagando em férias que começa a experimentar uma estranha instabilidade em seus afazeres. Uma incógnita mensagem escrita, deixada em seu quarto de hotel, o leva a uma aventura investigativa na tentativa de encontrar o remetente. No caminho de descobertas, Kirk é atormentado por pesadelos e situações recorrentes que começam a levá-lo ao desespero. Somente ao voltar a Paris e à sua bela amante Brigitte, é que experimenta alguma estabilidade. Mas logo os pesadelos e incertezas o jogarão de volta a um caminho de errâncias cada vez mais alarmantes pata terminar tragado por um vilarejo no interior do México, em um trajeto que faz lembrar Ambrose Bierce, ou B. Traven (com o perdão da aproximação).

Tudo ali era mistério e ambiguidade: as flores pareciam enxergar com os olhos de animais, os bichos adoravam a cor do musgo, o formato de um tronco. As rochas esboroadas, perfuradas, enfeitadas de líquen sugeriam massas de carne em putrefação. E o espaço todo vibrava com a zoada dos insetos.

Narrado em situações blocadas a novela assume sua forma estranha e folhetinesca para a constante dúvida do que é real ou imaginário na percepção do protagonista. Kirk passa, em um instante, do conforto das viagens internacionais e dos hotéis refinados ao submundo dos deserdados. Alucinação é assim, um delirante suspense B situado como herdeiro dos surrealistas por seus devaneios frequentes, passeios de flaneur, manifestações do inconsciente e busca constante por identidade, culminando em um empalamento no epílogo! Fluente e hipnótica, é uma pequena grande novela perdida entre lançamentos esquecidos de nosso mercado.

Seria um boneco? Um espantalho? Aquela forma humana empoleirada no topo da árvore aguçada como um chuço? Seria um manequim capaz de emitir sons? O suporte penetrava no corpo lentamente... O sangue escorria pela cortiça abaixo. 


Leitura radical
Poderia ter desenvolvido mais.

Leitura passional
Um impiedoso e crescente delírio. 

Alucinação
Vengeance de L'inconnu, Patrick Svenn, 1956
Ediouro, Rio de Janeiro, 1980
121 páginas

Alucinação

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