Enquanto dirigia o carro sentia a emoção fria no sangue, controlada, porém vibrante. Quase oito anos, mas ele os recuperaria, todos com juros, nessa única noite que se desdobrava à sua frente com a mais sombria e selvagem das promessas.
Suspense pesadão do mesmo autor de Horas de Desespero, aquele pioneiro home invasion que viraria filme em 1955 (Humphrey Bogart) e 1990 (Mickey Rourke). Aqui em Noite da Vingança temos a história de Boyd Ritchie, um jovem que depois de cumprir oito anos de cárcere, volta a cidadezinha de Tarkington para uma noite de ações criminosas que se multiplicarão em uma catástrofe urbana. Dividido em seis partes e segmentado em divisões menores, sem separação de capítulos, A Noite da Vingança começa arrastado por sua profusão de personagens e detalhes demais sobre a vida e intimidades de cada um deles (cumprindo aquela sempre duvidosa estratégia do formato best-seller em exceder a quantidade de páginas suficientes à narrativa). Porém a habilidade de Hayes faz o livro ganhar fôlego no desenvolvimento ao entrelaçar os dramas e segredos em uma onda de eventos que vão escalando em tensão e violência, com vários momentos incômodos pela explicitação. Além de situações macabras, como o homem levando o corpo da esposa no carro, no assento ao lado.
Como o mau cheiro do cadáver começasse a enevoar-lhe o raciocínio, voltou a cabeça para olhá-lo. Não acendeu as luzes. Continuava ali, meio sentado, meio caído. Inflexível. Grotesco. O cobertor tinha escorregado revelando um brilho branco de carne nua. Não podia ver a cabeça. O que tinha restado da cabeça. Como poderia algum dia ter imaginado que a amava?
Hayes conseguiu a proeza de criar ansiedade claustrofóbica nas externas da cidade. Os segmentos curtos que funcionam como capítulos, empurram a leitura adiante e sempre tem alguém checando relógios, o que serve ao leitor situar a hora da madrugada em que as ações ocorrem simultaneamente. Considerando as liberdades estéticas da cultura pop de então, especialmente o cinema – inevitável ler um best-seller de forma análoga a ver um filme – este Noite da Vingança bem poderia ser um thriller de Don Siegel ou Sam Peckinpah! Implacável com seus personagens, o livro coloca o leitor na simples (e sádica) posição de espectador. Todos os personagens merecem algum tipo de punição e resta à leitura montar a sequência de eventos punitivos que escalarão em violência e desespero até o tenso confronto final com uma grande quantidade de momentos perturbadores no decorrer da montagem dramática central.
Ao se aproximarem, ela viu uma figura emergir do retângulo negro que antes tinha sido a porta de entrada. Saiu intempestivamente com um braço levantado como para proteger o rosto, mas a camisola comprida já estava inteiramente em chamas. Corria às cegas, enlouquecida, uma tocha humana arrastando chamas e faíscas até o gramado.
Detalhista em excesso.
Leitura Passional
Perfeita dosagem de drama, tensão e violência.
A Noite da Vingança
The Long Dark Night, Joseph Hayes, 1974
Editora Record, Rio de Janeiro, 197?
375 páginas


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